Ana Carolina resgata clássico “machista” de Moreira da Silva: “Hoje há muito pior”

Celebrando 20 anos de estrada, a mineira Ana Carolina não quer falar de política. Nem de como, nos últimos anos, passou a frequentar páginas de celebridades após assumir namoro com a atriz Letícia Lima. O foco agora é 100% em “Fogueira em Alto Mar”, seu primeiro álbum de estúdio em seis anos, que começa a ser lançado hoje.

Pela primeira vez na carreira, Ana soltará um disco completo dividido em três EPs, que serão revelados aos poucos. Sinal dos tempos: são 12 faixas ao todo, compostas por gente como Antonio Villeroy, Zé Manoel, Edu Krieger e Bruno Caliman, o menino dos hits de ouro da música sertaneja. Mas a “sofrência” de Ana Carolina é diferente.

Sua fórmula ainda é o MPB/pop, que lhe rendeu fama nos anos 2000, acrescido de ingredientes do samba. O gênero é representado duas vezes no novo álbum: “Da Vila Vintém ao Fim do Mundo”, com participação de Elza Soares, e “1296 Mulheres”, clássico de Moreira da Silva lançado em 1965, indicação do crítico e amigo Rodrigo Faour.

A música traz versos em que o compositor se gaba por conquistar “três mulheres por mês”, somando 36 ao ano e 1.296 ao longo da vida. O tempos mudaram e, a ouvidos mais contemporâneos, a música pode ser soar extremamente machista, mesmo cantada por uma mulher. Para Ana Carolina, esse não é bem o caso.

UOL – Por que se unir a Bruno Caliman, que fez tanto sucesso no sertanejo?

Ana Carolina – Foi o Bruno Batista [gerente de marketing da gravadora Sony] que me apresentou o Caliman. Normalmente, eu faço a parte musical e deixo a letras para parceiros, e o Bruno tinha falado muito bem dele. Ele é um amor de pessoa. Talentosíssimo. Pretendo continuar trabalhando com ele por muito tempo.

Há quem diga que o sertanejo perdeu poesia em nome de letras exclusivamente prosaicas. Não teve receio de aceitar trabalhar com ele, por vir de outro meio?

O Caliman é um grande poeta. Tenho que defendê-lo aqui. É um cara que soube fazer muito bem as canções a que nos propusemos a fazer. É competente e apaixonado pelo que faz. E eu respeito muito isso em um artista. Nos demos muito bem.

1296 Mulheres” é um samba delicioso. Como o descobriu?

Quem me indicou foi o Rodrigo Faour, um grande pesquisador, escritor e amigo. Quando ele me mostrou, pensei: “Como ninguém nunca regravou essa canção ainda?” Como ela tem uma vocação de gafieira, achamos que cairia como uma luva no bloco samba do disco, junto de “Da Vila Vintém ao Fim do Mundo”. É uma música que já nasceu clássica.

Não acha que ela pode soar machista atualmente? A letra cita a mulher apenas como objeto de conquista.

Olha, hoje existe tanta coisa pior. Existe um machismo tão truculento e insuportável na sociedade que acho que essa música vai passar batidona (risos).

Como é compor e gravar pela primeira vez após a chamada “guinada conservadora” no país e na política? É diferente?

Eu prometi a mim mesma que nunca mais falaria de política. Mas essa caretice que impera me incomoda muito. Atrapalha. É a única coisa que posso te falar.

Qual foi a sensação de gravar com Elza Soares uma música que fez para ela?

Foi uma aula de alto astral, de vida. A Elza é uma guerreira. Passamos uma tarde inteira gravando. Foi muito frutífero e emocionante. Me vi com os olhos cheios d´água no meio da gravação. Ela parece ter 20 anos de idade em estúdio. Uma coisa espetacular de se ver.

A Elza havia me pedido uma música em 2016 ou 2017, e, como acontece comigo com várias outras divas, fiquei travada para compor. Demorou muito. Uma pressão enorme. Mas consegui reverter e concluir a homenagem.


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