Toda Manhã

Texto falado depois de Cristo de madeira no N9ve

A próxima canção vai pra você que tem um porta retrato do filho ao lado do computador, com folhas atoladas na segunda gaveta, que não acredita em nada mais pra não forçar a esperança a acreditar em você. Que entrou nesse show talvez por acidente, ou por curiosidade; que mal passou os olhos pelo palco e viu que não era com você. Peço que fique mais um pouco pra descobrir realmente que não é com você. Nada disso é com você!

E tudo pode vir a ser. É com você que nunca está satisfeita com a altura da cadeira, mas não sabe como girar a manivela. A você que passou a vida disciplinado desespero…Segura a bolsa!

Do lado do quadrinho, e é suave pra olhar de canto. A você que está aqui, e não se resolve porque não é aqui que está! Mas dentro daquilo que procura.

Alguns procuram um endereço, outros um sentido.

A você que não duvida ao assinar o nome, mas troca invariavelmente a data.

A você que em toda manhã regressa do seu mais profundo e ninguém repara o seu esforço pra subir a superfície.

A você que parece sombra quando a água passa, que parece água quando a sombra assenta.

A você quero dizer…Eu desapareço em você!

Autor: Carpinejar (adaptado p o showq N9ve)

Texto Completo:

A você, que tem um porta-retrato do filho ao lado do computador, com folhas atoladas na segunda gaveta, que não acredita em nada mais para não forçar a esperança a acreditar em você, que entrou neste livro talvez por acidente ou por curiosidade, que mal passou os olhos pela primeira linha e viu que não era com você, peço que fique mais um pouco para descobrir realmente que não é com você. Nada disso é com você; e tudo pode vir a ser.

É com você, que nunca está satisfeita com a altura da cadeira, mas também não sabe como girar a manivela, que diminui os passos para escutar o bambu plagiando a chuva, que falo.

A você, que gostaria de ser mais percebida, mais elogiada, mais viva, que ninguém nota o vestido novo, o cabelo cortado, que chega ao trabalho pensando que causará outra impressão, e o espaço vai repetindo o dia anterior.

A você, que cuidou dos irmãos pequenos, que comprava cigarro para o pai e leite para a mãe, que teve que pular a janela para sair com os amigos.

A você que não está satisfeita com o emprego, com os hábitos, com o número das calças, com o guarda-roupa, com o guarda-chuva, que espera as próximas férias como um domingo prolongado, que gostaria de dormir mais e ser penteada pelo vento antes de acordar.

A você, cheia de expectativas, que se diplomou e pensou que tudo estaria resolvido, que se casou e pensou que tudo então estava pronto, que teve um filho e pensou que tudo estava chegando. Não a conheço, muito menos sei o que lhe aconteceu na infância, qual foi o primeiro namorado, a primeira transa, o primeiro choque, o primeiro porre, o primeiro do primeiro amor, o primeiro do último amor; é justamente a você que começo a escrever dentro de sua desistência.

A você, que nunca pensou que o riso também precisa de aquecimento para não se machucar em rugas, que deseja ler de manhã e viver o que se lê de tarde, e que não lê de manhã e nem vive de tarde, e sobra a noite para fazer de noite.

A você, que é uma promessa de cheiro, de chá, que coloca perfume nos pulsos e no pescoço, que tem receio de chorar onde não se chora, de falar o que não se deveria, que se controla e se autocensura para não se entregar.

A você, que passou a vida a disciplinar o desespero, que segura a bolsa perto do quadril, que é suave para olhar de canto.

A você, que está aqui e não se resolve, porque não é aqui que está, mas dentro daquilo que procura. Alguns procuram um endereço; outros, um sentido.

A você, que escuta o sangue e não entende.

A você, que quer explicações para não se contentar com relatórios, para não se apaziguar em brincadeiras, que não usa relógio para não ser infiel à aliança, que repara as laranjas germinando abelhas na hora do almoço.

A você, que não duvida ao assinar o nome, mas troca invariavelmente a data.

A você, que em toda manhã regressa de seu mais fundo e ninguém repara o seu esforço para subir à superfície.

A você, que parece sombra quando a água passa, que parece água quando a sombra senta; a você quero dizer: eu desapareço em você.

Fabrício Carpinejar

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