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Blog Cantinho da Ana
01 fevereiro 2017

Ruído Branco Show-Livro de Ana Carolina

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Um tiro. Uma dor quase desejada. Catarse.

Ao final da estréia do show “Ruído Branco”, Ana Carolina parece deixar o seguinte recado: desista de tentar me enquadrar, me definir, me encaixar em categorias ou procurar um rótulo onde escrever meus conteúdos e modos de usar. Nem mesmo eu saberia o que escrever ali.

Ainda não encontramos um adjetivo decente para sequer explicar o que sentimos durante show, porque foram 80 minutos de emoções muito, muito profundas. As canções, as imagens, as leituras, tudo se misturava às nossas vivências, tudo que sabemos sobre ela, o estado de entrega em que ela se encontrava, a preocupação com a estréia, as histórias dela que conhecemos, as nossas relacionadas à nossa própria vida e as nossas relacionadas a ela… Nossos cérebros e corações pareciam que iam explodir. De verdade. Não somos do tipo que chora em show, mas ao final desse, estávamos com a cabeça latejando tamanha a força que precisamos fazer para segurar o choro escandaloso.

Não sabíamos o que fazer durante a apresentação. Conhecíamos alguns canções, mas não conseguíamos cantar junto… Seria um pecado. Não sabíamos quando começar e quando terminar de aplaudir, porque a vontade era subir ali, abraçá-la, pegar no colo, guardar numa caixinha e levar pra casa. Todo mundo devia estar se sentindo dessa forma. Escutávamos os cochichos à nossa volta: “Meu Deus, o que é isso?”, “Cara, como ela é sensacional!”, “Nossa Senhora…”, muita gente secando as lágrimas e contendo a emoção. Pessoas que, temos certeza absoluta, pois já fomos a outros shows em que elas estavam presentes, estariam cantando junto e gritando todo tipo de bobagens. Ninguém estava miseravelmente preparado para aquilo ali. Ninguém tinha coragem de macular aquele momento participando de qualquer outra forma que não fosse com o silêncio e a mais profunda emoção. Imagino que, talvez muita gente tenha saído meio chateado porque não teve a chance de cantar junto seus maiores sucessos, ou porque não pôde ir até a frente do palco tocar suas mãos, porque não pôde viver aquele momento “Elevador”… Quem não a “respira”, realmente, talvez tenha saído dali sem entender nada, mas, certamente, saiu tocado pela profundidade das emoções que ela deixou, muito corajosamente, transbordarem ali. Certamente saiu entendendo que não “sabe nada daquele mar” que estava se apresentando.

Se fôssemos críticas de arte, talvez classificássemos o espetáculo como um Musical e não como um show de uma cantora. Foi teatral, porque havia um enredo, uma história a contar, uma protagonista, imagens e relatos de uma vida em tudo ali. Uma entrega impressionante.

Se fôssemos comparar a tudo que já vimos dela, não conseguiríamos. Nem achamos que valha a pena, porque machucaria a preciosidade do que ela tentou fazer. E fez!

Essa pureza inspiracional que a Ana preserva com tanto afinco, talvez seja sua marca registrada. Talvez, só talvez, essa seja a forma de defini-la. Uma pessoa que luta desesperadamente por respeitar sua inspiração e todo o esforço que faz para traduzir o que a inspira em forma de seja lá o que for.

Algumas mudanças foram visíveis. E, não, não foram no figurino. Ela não era mais o centro do palco. O microfone estava posicionado mais à direita, perto do tecladista (novo também e novamente maravilhoso – ela sabe escolher excelentes instrumentistas – Thiago Antoni). O show não começa com ela, mas com o que seria o início do Show-Livro, o início da história que ela queria contar. Poesia. Rotatória recitado por Maria Bethânia. Em seguida ela canta ao som do piano, mãos livres, “Outras Paisagens”, composta por ela e Edu Krieger para o Projeto Dorflex e que há muito era desejo dos fãs, que acompanham mais de perto seu trabalho, que entrasse em um set list.

Em um show onde a cantora é muito mais atriz, intérprete, a vemos vivendo mais fortemente suas emoções convivendo com as expressões de suas mãos, de seu rosto, já que os instrumentos musicais, seus parceiros constantes que costumam já entrar em seus braços desde a primeira canção, dessa vez quase não aparecem. Os arranjos do show ficam quase que exclusivamente sob o comando do piano e das programações maravilhosas feitas por, Anthoni. O que torna tudo ainda mais especial, pois a convivência entre a voz magistral de Ana Carolina e o piano formam uma dupla impressionantemente emocionante.

Difícil escolher os pontos fortes, pois a forma como as canções e textos foram selecionados para serem apresentados não permitem que nada passe sem sentido ou de forma entediante. Tudo está amarrado, contextualizado. Quando estamos começando a nos recuperar de uma forte emoção, vem outra em seguida, não restando muito tempo para sequer refletir sobre o que nos “atropelou”. As letras das canções escolhidas de repertórios alheios poderiam perfeitamente ter sido escritas por Ana para seu livro. Complementam-se à perfeição.

Em “Rotatória”, primeira poesia recitada por Maria Bethânia para o show ilustrada pelo primeiro e impactante vídeo feito para o show-livro, e que, em seus primeiros versos explica claramente tudo o que virá a seguir – “Agora você sabe quem eu sou e por isso me desconhece”, AC engata a belíssima canção, parceria sua com Edu Krieger, “Outras Paisagens”, quando também relata “Quero ver outras paisagens (…) porque mesmo sem coragem eu quero andar, eu quero ir”. Num misto entre seus amores e sua vida não poderia ter sido melhor a canção de abertura a explicar, quem sabe, o que a motivou a tamanha aventura artística e pessoal. De falta de coragem não há nada ali. E, parece que Ana sabe que as pessoas que admiram seu trabalho entendem e a acompanham em suas viagens, sempre entendendo seus motivos, sempre a apoiando e mais, sempre se sentindo igualmente descritos em seus versos e em sua coragem e exposição.

Engata em “Eu e Eu”, segunda poesia do show, que fala do “Outro” exaltado por Fabrício Carpinejar no prefácio do livro que se encaixa perfeitamente com a primeira canção de fora de sua autoria “Dentro de mim mora um anjo” (Sueli Costa e Cacaso), cantada por Fafá de Belém em 1978, cujos primeiros versos reafirmam o que “Rotatória” introduziu – “Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim”. Combinação que gera o primeiro “soco no estômago”, em especial para quem acompanha a artista há muitos anos.

Da introspecção, Ana parte para “Qual é”, canção protesto, reflexiva da contemporaneidade, em um arranjo elegante de piano e programação que substitui o violão que a acompanhou em sua primeira apresentação no show “Solo”. Ficou perfeito, profundo e elegante.

15 minutos se passaram, Ana respira profundamente e dá “Boa noite”. Todos respiramos. Nos ajeitamos na poltrona, saímos do estado de tensão, abrimos as mãos e voltamos a respirar tentando entender o que nos assolou até aquele momento. Inteligente, após falar um pouco sobre o show, poucos entenderão a brincadeira, a sanidade e o elo que ela faz entre “Qual é” e a adaptação do Poema “No meio do caminho” de Carlos Drummond de Andrade. Dizemos sempre e repetimos, Ana Carolina é sutil, não dá ponto sem nó, nada está desconectado ali e é preciso realmente conhecê-la par desvendar suas intenções. Não é nem nunca será para principiantes, observadores tecnicistas ou de primeira viagem. O elo entre a canção protesto, o bate-papo e o retorno às vivências amorosas no show é feita com “Além do Paraíso” de seu eterno parceiro de composição – que não poderia ter ficado de fora – Antônio Villeroy, com uma perfeição impressionante. Nem o microfone da casa de show resistiu à potência e às energias daquela estréia e precisou ser substituído após esta canção.

Em seguida, o segundo momento poderoso do show, que nos levou às lagrimas pela primeira vez, uma “instalação artística” que começa com um vídeo da prosa “A selva”, complementa-se com a artista recitando o poema “Voo”, seguida da belíssima canção de Arthur Nogueira e Dand M “Preciso Cantar” e fechando com trechos da Prosa “Firenze”. Profundamente impactante. Lindíssimo! Lindíssimo!

Não recuperadas da catarse anterior, ainda tentando respirar profundamente, Ana segue com “Todo sentimento” de Cristóvão Bastos e Chico Buarque somente voz e piano. Doce e terna canção.

Passamos por um momento mais calmo, assistindo Lázaro Ramos recitar o enigmático poema “Não Leiam” e a vemos, agora pela primeira vez como também instrumentista, com nada mais, nada menos, que o contra baixo, que a acompanha desde “Ana e Jorge” dedilhando a deliciosa “Vai que dá certo” de Emerson Leal. Como sempre, não há um novo trabalho de Ana Carolina que não nos traga de presente artistas maravilhosos que desconhecíamos.

Entoando “Beijo Partido” (Milton Nascimento e Toninho Horta), recitando sua poderosa poesia “Andaime” e cantando de uma forma totalmente nova “Shangrilá” (Rita Lee e Roberto de Carvalho), Ana Carolina descreve com clareza precisa suas relações entre si, sua fama, sua vida, seus amores e os dilemas do entrelaçamento dessas relações. E pula desse turbilhão de emoções para seu estado atual, feliz, solar, divertido e amorosamente emocionante ao recitar “Pra ela” e fechar com chave de ouro esse trecho da “história” contada desde a canção de Milton e Toninho com a deliciosa “Por você” (Frejat, Maurício Barros e Mauro Santa Cecília) sucesso super conhecido, que levanta o público e nos emociona em particular. Ponto para o arranjo dessa última canção que ficou lindo, leve, quase um tema de filme.

Num retorno à sua obra, o “terceiro ato” de seu show-livro (Poesia – Prosa – Poesia Musicada – Caderninho) segue com o clipe e o Rap “A pele”. Nem em nossos maiores devaneios imaginaríamos essa Poesia Musicada dessa forma. Nem em nossas maiores apostas imaginaríamos AC e um Rap. Tão perfeito que incomoda. Clipe rápido, versos certeiros sobre nossas relações entre nosso maior, mais exposto e delicado órgão, responsável por tantas sensações fundamentais e incríveis da vida de qualquer ser vivo, e como o usamos para simbolizar quem somos. Sensacional!

No melhor momento “poeta-atriz” Ana, recita trechos da Prosa “A selva”, em nossa opinião o mais impactante do livro e do show. Não está na íntegra, instiga quem ainda não comprou o livro a tê-lo e a quem teve preguiça a lê-lo. Mais uma surpresa em termos de interpretação, AC surpreende, pois a intensidade do escrito não nos fez imaginar a velocidade e poder do que ela queria expressar ali. Forte, entrecortado pela vídeo feito para ele, que mostra a expressão de algo que vem sendo vivido desde sempre pela artista, como algo presente, constante, intenso, quase sufocante, sua selva particular.

Fechando a poesia musicada, Vídeo, programação, piano, melodia, arranjo e letra trazem um de volta a água, elemento constante no trabalho da artista, o mesmo meio de expressão do primoroso e experimental “Um sueño bajo el agua”, para transformar em canção “Velho Piano”. Não conseguimos encontrar palavras boas o suficiente para adjetivar ou tentar expressar esse momento. Só podemos sugerir: Vá! Assista! Sinta!

Ciente do quanto conseguiu destroçar seu público até esse momento, Ana Carolina dá uma breve pausa e brinca com um futuro nostálgico, quem sabe possível, lendo um texto em que conversa com a neta que ainda não tem, mesclando o ironia, a seriedade, a diversão, o carinho, as preocupações da era moderna e com o futuro. Como se fosse ela conversando consigo mesma se fosse uma criança no futuro. Seguida pelos versos de “Caderninho”, que ela escreveu quando tinha 11, 12 anos, recitado pela voz de uma criança, passado, presente e futuro se consolidam e se fecham com a belíssima interpretação de “Se essa rua fosse minha” acompanhada pelo “piano caixinha de música”. Terno, puro, belo e, como não podia deixar de ser, emocionante.

O final do show-livro reserva emoções não menos intensas e importantes. Camila Morgado recita o poema “O silêncio”, que fala da relação da artista com o pai que não conheceu, com a irmã e, também com sua mãe, sua cumplicidade e total apoio ao amor e à individualidade dessa mulher que, para quem acompanha Ana Carolina de pertinho, cumpre um papel indizível em sua vida em todos os sentidos possíveis. Por quem absolutamente todos nós nutrimos um carinho impressionante e fecha o simbolismo do amor acima de todas as coisas com a canção “Paula e Bebeto” (dos incríveis Caetano Veloso e Milton Nascimento, canção cuja história vale a pena conhecer e entender como é tão boa e perfeita para esse momento do show, nada ali é por acaso). Definitivamente um dos momentos mais lindos e plenos em cumplicidade do show.

Após muitos suspiros profundos, alguns silêncios necessários entre atos, visivelmente emocionalmente cansada pela estréia, pelo enfrentamento corajoso de trazer ao público um espetáculo como esse, Ana fecha o espetáculo com “Mais uma vez” (Flavio Venturini e Renato Russo) acompanhada do impecável piano e programação de Thiago Anthoni, momento tiro de misericórdia para nós, já destruídas a essas alturas do campeonato e “Primeiros Erros” de Kiko Zambianchi. Enfim, acreditamos que essas duas canções, depois de tudo o que foi dito até aqui, dispensam comentários.

80 minutos. Só soubemos porque tivemos o cuidado de cronometrar, coisa de quem vai querer descrever o show depois. Se perguntassem quanto tempo o espetáculo tem de duração talvez disséssemos, até aqui, 42 anos e alguns meses e muitos anos no futuro que não saberíamos dizer, pois é a peça de uma pausa reflexiva na vida de Ana Carolina.

Mesmo após um texto tão extenso temos certeza que não conseguimos relatar nem miseravelmente bem o que aconteceu nesse show-livro.

Quem está em dúvida, ou com qualquer tipo de problema bobo de resolver que esteja impedindo de assistir ao próximo e, por enquanto, único show do “Ruído Branco”, que acontecerá em São Paulo, no Teatro Santander, dia 9 de fevereiro agora (está em cima!) sugerimos de verdade, de coração, resolva. Vá! Assista! Reserve-se esse momento de emoção e reflexão em meio a essa nossa vida tão dura e ausente de emoções profundas. Tenham certeza de que não irão até lá para encontrar a artista. Sim, isso acontecerá. Mas, muito de cada um de nós está cantado, lido, filmado, descrito nesse espetáculo que merece uma marca especial na história de como se fazer arte nesse País.

Texto: Letícia Z Albuquerque

Imagens: Nelson Faria

Cantinho da Ana Carolina

Próximo Show:

DATA:
9 de fevereiro

LOCAL:
Teatro Santander (Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi, São Paulo – SP)

HORÁRIO:
21h

INGRESSOS: 

Ingresso Rápido

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