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Blog Cantinho da Ana
16 dezembro 2016

Relatos Pós Ruído Branco.

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Muito, muito difícil ler sem tentar decifrar as dez milhões de dúvidas, devaneis, certezas e apostas sobre a mulher que acompanho há tantos anos sem nenhum motivo ou razão que me obrigue a tal.

Difícil ler sem comparar a escrita dela à minha.ana-carolina-credito-nelson-faria-2-1

Difícil não procurar as semelhanças entre nós. E também as diferenças.

Difícil não querer cuidar quando há escuridão e choro, não desejar ter estado quando há prazer e gozo. Não querer sentar e conversar, escrever o meu livro e lhe dar. Contar-lhe também minhas histórias, como quem trocava correspondências no século passado.

Difícil desvincular anos de experiências tão diversas com as pistas vindas na leitura.

Histórias, sonhos, pesadelos, insônias, viagens, medos, transas, desejos, família, amigos, amores, as pinturas, as canções… tudo está ali. Nós, não. Acredito que devemos estar presos em alguma das “certezas inclausuradas” de sua densa selva. Ou minha primeira leitura e minhas próprias certezas não me tenham permitido encontrar nossos vestígios por ali.

Percebo que ela se tornou artista por acaso. Que sua fama escandalosa vem do fato simples de sempre expôr o que sente e pensa da forma que bem entende. É muito, muito mais do que a aparência e a voz. Vem de não respeitar nenhuma convenção que não seja aquela que seus instintos ordenam. Nem para compôr, nem para pintar, nem para cantar, nem escrever… Sua liberdade é sua fama. Por isso tão atraente. Porque, no fundo, nós nos amamos profundamente como realmente somos e ela nos faz lembrar disso o tempo todo. E, de certa forma, mantém acesa a chama da esperança de que talvez possamos ser livres também.

Umas escolhem o discurso político, outras escrevem livros, muitas escolhem o silêncio, o suicídio, ela escolheu as artes. Todas elas.

E como se não bastasse toda sua insistência cotidiana em nossa vida, agora ela está em escrita. Bem literal, bem poética. Não está mais escondida nas frases metafóricas das canções, nem na abstração de suas telas com palavras soltas, nem nas vertigens de saber se aquele olhar no show era para mim, para as outras 20 pessoas à minha volta ou uma simples fuga de um refletor inconveniente.

Agora ela está ali contada, explicada em bom português. Ainda que em poesia, há muito dito e explicado, descrito, transcrito, relatado. Ali não há muito o que duvidar. Ou há? É truque? É maquinado ou é transcrição de seu diário? Mais uma inquietação. A ideia é desvelar os mistérios ou elevá-los ao grau do insuportável? Aquele ponto do quase gozo que sempre pausa para se estender, mas nunca é êxtase? Se fosse já poderíamos relaxar, deixar o coração desacelerar, as pernas pararem de formigar, o órgão parar de pulsar e dormir. Mas, isso nunca acontece.

E minha mente científica, racional, questionadora, Cartesiana volta à Aristóteles que, há alguns milênios, decidiu desenvolver o conhecimento de tudo o que podia ser generalizado e tornado lei e escolheu, deliberadamente deixar de lado os sentimentos humanos, uma vez que não há lei que dê conta da previsibilidade deles.

Caro, Ari, você estava enganado. A mera exposição de suas singularidades fez dessa mulher a lei de todas as que a seguem, a desejam, a amam, a veneram, a odeiam, a invejam pelo simples fato de que ela expõe o que todas tentamos esconder. As singularidades dela, surpreendentemente, são também as nossas. Até o relato da singularidade dos seus desentendimentos de suas relações encaixam quase que perfeitamente nas singularidades dos nossos desentendimentos com nossos amores. Chega a ser irritante.

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Assim, ela se torna nosso ídolo e nosso fardo, porque a mera menção de ser sua fã nos marca à ferro quente no lombo todos os adjetivos e requisitos que sabemos que temos e somos, mas que não gostaríamos de revelar. Na verdade, adoraríamos revelar, mas mil e uma neuroses e externalidades, que insistem em nos lembrar de nossa miserável condição, não permitem. Externalidades de nosso mundo pessoal, externalidades do mesmo universo de todos que participam da casta da Rainha. Todos nos lembram e nos “situam”, diariamente, a respeito de nossa submissa existência.

Revelar nossas verdades só quando estamos no ambiente em que todas estão juntas e onde todas são livres. Nos shows, nos encontros entre fãs, entre amigas escutando seus CDs, assistindo a seus DVDs. Ali todas somos ela. Tanta semelhança não deveria poder ser separada pela impossibilidade de 1 ídolo, milhões de fãs. Deveria existir algum mecanismo experiencial que evitasse isso.

Ainda não terminei a leitura. Na verdade estou com medo, porque não quero acabá-la. Odeio finais de show. Finais de programas onde ela se apresenta. Finais de novos álbuns. Quero continuar a decifrá-la-me.

Quero ser escuro e solidão e tristeza para me tirar desse lugar vão e me colocar num lugar novo, querido e conhecido, um novo começo de convivência com ela onde eu não seja taxada como sou hoje: fã. Me fizeram odiar esse posto. E verdadeiramente o odeio, porque ele me reveste de uma blindagem que impede que me vejam como essa mesma humana que me causa tantas sensações importantes para minha auto-elaboração. Ela se elabora na arte, eu me elaboro nela. Não sei por quê. Nunca foi proposital. Simplesmente foi. Já cansei de tentar entender o motivo. Acho que, para ela, as canções, a pintura, a escrita também não foram propositais. Simplesmente foram e ponto.

Mas, se sequer desconfiasse que tornar-me “fã”  seria uma cicatriz grosseira que me escancara a face, jamais teria deixado aparecer. Teria mantido escondida essa necessidade dela assim como tudo o que ela representa sobre si própria e, consequentemente sobre nós, ao se expôr. Porque, se tudo o que ela representa me liberta, ser associada a ser sua fã é a pior das masmorras. É só mais um dos preconceitos com os quais tenho que conviver.

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Não faço ideia se é assim com todas elas, todas essas mulheres. Parte do prazer que tenho hoje vem de observá-las. Às suas reações, seus olhares de ternura, de sofrimento, de angústia, de doçura, de pressa, ansiedade, medo, de alegria profunda quando estão perto dela. O mais lindo dos momentos é o do encontro dos olhares, porque é impossível esconder a ternura e a cumplicidade de dois olhares que se re-conhecem num abraço. Na compreensão do carinho imenso que é dedicado a ela, na felicidade de um sonho realizado em tocar na pele, no concreto daquele emaranhado de sensações que ela representa. Aquele momento que faz a pessoa se sentir importante no mundo. O momento do “ela olhou para mim naquele micro-segundo”, só para mim sem dúvida nenhuma. Sou vista, logo existo.

Penso em como estão as cabeças dessas poucas centenas de mulheres que foram lá pela chance de vê-la de perto, de conhecer sua altura real, ver em todas as dimensões, escutar a voz não cantada, observar as ações e reações por algum tempo e perceber que além de tudo, ela é um encanto de humana e que, acima de tudo é humana!!! Não foram pelo livro, mas irão se deparar com ele. Irão se deparar com a pessoa por trás daquelas letras em seus momentos de leitura solitária. Como será que estão essas mulheres agora, diante dessa enxurrada de novas informações a respeito desse ser que já estava mais ou menos organizado em suas cabeças e corações?

Leiam o livro. Mas não em uma hora, como tenho constatado por aí.

Ler somente não resolverá nada. Não é uma interpretação de texto sobre algum tema de concurso. É um momento de absorção e elaboração de pensamentos e sentimentos que vão se formando à medida que aquelas palavras juntas, naquele texto, daquele livro, escrito por aquela pessoa fazem sentido para você. Que, certamente, apesar do encontro de nossas singularidades estar ali, não significarão a mesma coisa para todas nós.

Será preciso silêncio, isolamento, relaxamento e um tempo não ônibus, não intervalo de aulas, não sentado assistindo TV simultaneamente à leitura, não comendo, não “lendo e comentando no Twitter / Face / Insta”, não “lendo e fotografando pra postar” ou qualquer tempo que não seja esse tempo leitura – elaboração – transformação.

É minha sugestão.

São esses meus relatos pós primeira leitura. Voltarei nele, certamente. Para viajar novamente, para me reinterpretar, me re-elaborar, amadurecer minha condição. Como já fiz com tantas leituras de tantos poetas e escritores. É ela, mais uma vez, indicando boas leituras. Quem diria ser um livro dela mesma um dia?

Vida longa à escritora!

Por: Letícia Z Albuquerque – Cantinho da Ana

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