Amor pelos desfechos

Chuvinha fina porém decidida, entro no táxi mandado a me buscar e que me aguardava à porta de casa. Já há uns quinze minutos.

– Boa noite, aonde vamos? Perguntou o motorista.

– Não sei, o senhor não sabe?

– Essa é boa: é a primeira vez que pego uma passageira que não sabe para aonde vai! Vou te contar.

– Pêra lá, o senhor foi contratado para me levar para uma corrida para a qual já foi até pago…e não sabe?

– Não senhora. A empresa apenasmente me bipa e eu venho no endereço. Certo?

– Bom, o que eu sei é que vamos para São Conrado na casa de Ana Carolina, aquela cantora.

– A cantora? Essa mulher é fera! E como é que a gente chega lá?

– Ana Carolina! Eu já de celular em punho falando com a própria! Como é que eu faço pra chegar até aí…etc e tal…patatipatata…

– Sabe que essa menina canta muito bem. Aliás, essa música que está tocando aí dela na novela é uma versão boa, mas a primeira foi a do José Augusto.

Pois não é que Marcos era esse o nome dele! Sacou de um cd, o melhor de José Augusto e o colocou no excelente som de seu carro imediatamente! Seguimos na estrada ouvindo breguice em silêncio. Cada um de nós fazendo suas comparações, suas escolhas. Ele preferiu a dele e eu disparadamente a dela, e a conversa vai até quando éramos pequenos, cada um no seu mundo, e o gosto pela música, já aparecendo na infância e coisa e tal. A conversa seguia boa até que ele perguntou:

-Será que Ana Carolina sabe que existe outra versão dessa música?

– Não sei, mas eu vou contar a ela.

– Jura?

– Juro.

– Vai dizer que eu mostrei o disco e tudo?

-Claro, vou contar a estória desde a hora em que ainda não sabíamos para onde íamos.

A chuva caía lá fora e São Conrado me parece mais longe e mais desconhecido. A gente erra ali, entra num edifício não sei que conforme a própria dona havia me dito pelo telefone, parecia ser num outro bloco mais adiante.

– Quer dizer que a senhora vai contar pra ela o assunto dessa nossa corrida!

Que eu sou fã dela e tudo?

– Claro que eu vou!

– É a gente fica pensando… Será que ela vai gostar de saber?

– Talvez ela já até saiba. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisaé outra coisa.

– Mas dá vontade de ser um mosquinha e assistir tudo o que vai acontecer lá quando você contar.

Não é que eu seja curioso não, sabe?

– Não, eu sei. Você uma espécie de enxerido científico, eu entendo.

– É, essa é a tristeza do motorista de táxi.

– Qual a tristeza Marcos?

– A gente nunca sabe o final. É sempre assim, essa agonia: Moço pelo amor de Deus, toca pro Santos Dumont

Que eu tenho que pegar esse avião que sai em vinte minutos. Lá em São Paulo um cara vai estar me esperando no aeroporto e de lá nós iremos para uma reunião que dependendo do resultado, eu vou poder me separar da Odete e casar com a Patrícia.. Eu nem acredito. Deus me ajude. Aí você pisa firme, toma até multa, mas deixa o cara no destino dele. E a parte deles com a gente só vai até “obrigado” ou “valeu” e a nossa com eles “até” ou “boa sorte”.

– E você fica pensando nos possíveis finais?

– Fico. Será que ele pegou o avião? Será que perdeu, chegou lá não havia ninguém esperando em Sampa porque ficou muito tarde e ele não pode resolver o negócio para se divorciar da Odete e casar com Patrícia, Meu Deus!

– Você tem razão. Porque você com seu serviço passa a ser um personagem na trama. Um personagem cuja ação é decisiva para o desfecho.

– Pois é. E quando a gente leva pessoa quase parindo? Ah, nossa senhora! Quando a gente chega lá e deixa a passageira e os parentes, ah…dá vontade de entrar no hospital, sabe?

– Sei.

– Saber notícia, esperar um pouco só para esticar o ouvido e escutar um marido dizendo: é uma menina como a mãe queria! Sei lá, eu falando assim pareço um cara intrometido…mas

– Mas não é. Você é um cara solidário, é diferente. Você se envolve com a estória do outro. Você tá ajudando o outro. Você considera a vida do outro. Você se importa com o outro. Sua curiosidade é uma certa compaixão pelo outro e quer acompanhar o desenrolar dos fatos depois que você o deixa.

– Você é psicóloga?

– Não, sou escritora e atriz.

– Ah, então também aprecia o roteiro da vida, né?

Se é. Vivo que nem você, pensando nos enredos. Agora eu to lançando um livro que chama “Uma escuta Passageira” que são algumas inúmeras estórias que os motoristas de táxi me contam. São maravilhosas. Isso dá a maior parceria pro meu pensamento.

– E o livro está no computador?

– Não, está aqui na pasta. Estou revisando e vou levar pra mostrar um conto que a Ana Carolina vai dizer na estréia dela.

– Deixa eu ver? É isso que eles chamam de originalidade?

– Ta falando com eles.

– Puxa, que honra! Que dia esse o meu! Aqui acontece de tudo. E se a gente contar parece mentira.

– Parece ficção sim.

– Bem chegamos. Acho que é aqui.

Ela disse o único prédio vermelho.

– Tchau, obrigada, bom trabalho.

– Tchau, Boa Sorte.

Nos despedimos no de sempre quando me voltei ainda sob a chuvinha já mais fina, eu já entrando no edifício, gritei:

– Marcos?

– Sim?

– Você quer saber o final?

Os olhos dele brilharam como os de uma criança que finalmente toca naquela bola querida.

– Claro que quero! É tudo o que eu quero!

– Então vem me buscar!

Elisa Lucinda

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