Alfredo, é Gisele

Sora vê, daqui do táxi a gente sabe é cada coisa. Sabe e aprende, aprende até a não ter preconceito. Eu vou dizer cada um tem o seu segredo, tem seu cada qual. Nem que seja um colsica de nada, no fundo todo mundo sabe que lá dentro tem uma verdade só dele que as vezes nem ele mesmo sabe.

Outro dia peguei um casal assim já de meia idade, bem apessoado, lá no centro, eles tinham ido vê um tal de uma ópera, sei lá. Já eram umas 11 e meia da noite, a gente veio bem até o Aterro, entramos em Botafogo e o trânsito emperrou. A mulher já azedou da hora e foi falando para o marido:

– Que trânsito é esse, quase meia-noite? Não é esquisito, Alfredo?

E o tal do Alfredo parecia um homem rico, mas não era fino, sabe? E também não gostava dela não. O cara era uma múmia. A resposta dele pras conversas da mulher tavam mais pra rosnado, sabe?

– Alfredo isso não é um absurdo? A gente aqui parado num trânsito quase de madrugada, não entendo, é estranho, hoje é sábado.Será que é algum acidente, Alfredo?

Aí o homem não dizia nada, e e acabei dando o meu pitaco:

– Madame simplesmente aqui, da licença, virou um lugar só de “homossexuais” e “mulhergay”. É cheio de barzinhos deles, a rua todas. Fim de semana ferve. Quem quiser ver homem beijando homem e mulher beijando mulher se esfregando todo mundo junto, é aqui mesmo.

-Você ouviu, Alfredo? Meu Deus, eles agora tem até bar pra eles, até rua? Não é um absurdo, Alfredo?

– Ô onça. cê me conhece, sabe bem como é que eu sou. Pra mim isso se resolve é na porrada. Se eu sou o pai, eu desço do carro e nem quero nem saber o q é que entortou, o que é que virou, não quero saber o que é cu e o que é fechadura, baixo o sarrafo na cambada! Eu, com sem vergonhisse, o sangue sobe. Eu viro bicho.

-Que isto Alfredo pára de falar essa palavras, olha o que o médico falou.

Alfredo é muito esquentado né motorisat?

Eu dei o meu pitaco:

– Oh madame, o negócio que ele tá falando é que nem que eu vi lá no filmeé uma metáfora. Ele não vai bater. Vai só ficar zangado.

-E o senhor sabe lá o que é metáfora? Fica aqui metendo o bedelho na nossa conversa aqui atrás.

-Eu sei o que é metáfora sim! Pelo que eu entendi, é assim: aquilo não é aquilo, mas é como se fosse aquilo. Mas não é. È como se fosse.Entendeu?

-Eu entendi, mas eu to chocada com essa libertinagem. Olha aquele homem. Alfredo, beijando outro homem, de bigode ainda. Alfredo! Olha Alfredo!

– E hoje ta até fraco. Eu falei. Hohe nem tem os “general”.

– Que general?

– General é aquelas mulheres de coturno que parece mais assim um macho. E o outro tipo de general é aquele homem transformista que é traveca, mas anda é na gillete mesmo.

– Tá ouvindo Alfredo? Que decadência Alfredo?

– E a gente vai ficar parado nessa merda, ó coisa?

Ele tratava a mulher assim.

– Calma Alfredo, não fica nervoso!

Isso é questão do nível das pessoas. A gente que tem…não é motorista?…A gente que tem um nível, a gente tem mais condições, temos que entender essa, essa, como é que eu digo Meu Deus!

– Putaria!

Falamos juntos, eu, ela e o tal do seu Alfredo.

– Cruzes Alfredo, olha lá aquela moça! Gente uma menina, dezoito no máximo, e a outra maiorzuda no meio das pernas da coitadinha. Fazendo sabe lá o quê! Tá vendo Alfredo aquela ali! Ali, Alfredo, aquela em cima do carro! Olha lá Alfredo, a mão da grandona na menina! Elas vão se beijar na boca, minha nossa senhora…

– Que trânsitozinho hein jararaca! A gente não vem aqui mais em Botafogo nunca mais, ta ouvindo ô coisa?

– Mas Alfredo olha lá, tem duas meninas se beijando, tá beijando, ta beijando Alfredo! Alfredo! Alfredo! Ela parece…Alfredo! Alfreddo é Gisele! Alfredo é a nossa filha!

– Filha da puuuutaaaaa…

E desmaiou, o tal doutor né desmaiou, enquanto a jararaca da mulé saiu porta afora de sapato na mão atrás das duas e eu pensando não quero nem saber, vou encostar o carro aqui mesmo e espero o resolver, que uma corrida dessa eu não vou perder que eu não sou bobo e nem sou rico. Num é ruim de eu ir embora, hein?

Aí eu fiquei naquela siuação eu com um cara que era um ex-valente todo desmaiado no banco de trás parecendo uma moça e a mulé dele pisando forte que nem um macho igual a um general, indo lá atrás da filha, quer dizer: tudo trocado e eles reclamando da menina.

Se eu pudesse eu ia lá defender a moça, mas eu não posso já que o negócio é de família, né? E eu não tenho preconceito não, mas é isso que eu tava falando pra senhora: daqui a gente sabe cada coisa!

Mas é cada um com o seu cada qual.

Elisa Lucinda

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