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Blog Cantinho da Ana
12 julho 2016

Ana Carolina levanta a plateia em noite comemorativa em Montreux

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Antes de falar da bela noite brasileira no aniversário de 50 anos do Festival de Montreux, no último domingo, é preciso entender o clima em que ele foi gerado. Imagine um dos países mais limpos, civilizados e organizados do mundo, onde tudo funciona – dos transportes à sustentabilidade – e onde há mais nascentes de água da Europa, com fontes abundantes e potáveis em tudo que é quarteirão e uma gama de rios e lagos que competem para ver qual é o mais translúcido. Montreux, pertinho do sul da França, é uma cidade mágica, encantadora, bucólica e há 50 anos o festival de jazz ali fundado é seu grande evento anual, colocando-a no epicentro musical do verão europeu. É quando incorre ao local um mar de turistas ávidos pelos shows principais, mas também pelo emaranhado de atrações paralelas nos 15 dias de evento.

Mais uma vez instigando a imaginação do leitor, convido-o a pensar num auditório imenso, com acústica perfeita, pista livre e cadeiras apenas no balcão, tendo nos arredores um generoso lounge para quem quiser assistir aos shows do lado de fora por um telão. E ainda no outro andar, uma caprichada lojinha de souvenires com mil e quinhentos badulaques trazendo o logotipo do festival. Quer uma bebida? Nada de garrafas, mas você ganha um copo decorado com grafismo alusivo à atual edição do festival e se quiser pode levar pra casa. Se não, devolve e recupera dois francos a mais na carteira no fim da noite.

Ainda no prédio e adjacências, os frequentadores podem se deixar clicar em deliciosas fotomontagens ao lado de seus ídolos do jazz por apenas dois francos suíços (cerca de R$7,50) – e levar a foto em papel para casa. Não resisti e fiz uma com “João Gilberto”. Você também pode ir em outra tenda e ganhar um carregador de bateria de celular (de bolso), caso tope assistir vídeos de três novos artistas e eleger o melhor para ocupar futuras edições do festival. Do lado de fora do prédio há uma rua de bares glamourosíssima com comidinhas deliciosas – um sanduíche com magret de pato e fois gras, por exemplo, é de comer de joelhos – e tendas com todo tipo de som, além de palcos alternativos com atrações “de grátis”, como o Nação Zumbi e Capoeira Gerais que passaram por lá nesta edição. Na madrugada, quem quisesse dançar depois do show brasileiro de domingo, o DJ Doca discotecava de “Porrada” dos Titãs a “O geguegê”, de Vanusa, na “Rock Cave”. Um escândalo. E tudo isso à beira do lago com um visual de tirar o fôlego.

GRANDES ENCONTROS NA NOITE BRASILEIRA

Após uma abertura animadíssima com a africana Angélique Kidjo era chegada a hora da esperada noite brasileira. O produtor Marco Mazzola, que desde o final dos anos 1970 vem promovendo um elo da MPB castiça com o mercado internacional, arregimentou oito grandes artistas brasileiros de várias fases e tendências para homenagear seu amigo Claude Nobs, o recém-falecido criador do festival, que como bom europeu documentava tudo – e seu patrimônio é hoje tombado pela UNESCO. Para tal, apresentou com seu jeito – um pouco sem jeito, é verdade, mas muito carinhoso – seus pupilos. Elba Ramalho e João Bosco, por exemplo, são dois recordistas em performances no festival. Já estiveram por lá pelo menos meia dúzia de vezes. Martinho da Vila, Ivan Lins e mais jovens como Ana Carolina e Maria Rita também já andaram por ali de duas a três vezes, bem como o bandolinista Hamilton de Hollanda. A única estreante da noite foi Vanessa da Mata.

Cada um dos oito apresentou quatro números e eventualmente alguns coletivos. O primeiro foi Hamilton de Hollanda, que brilhou com canções autorais e foi muito aplaudido com o clássico “Canto de Ossanha”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Depois, Martinho da Vila entrou batucando em seu pandeiro uma versão gaiata do refrão de “Devagar, devagarinho” (“C’est lentement/ c`est lentement”) para também homenagear Claude Nobs. Depois engatou num pot-pourri de sucessos, incluindo “Quem é do mar não enjoa”, “Canta, canta minha gente”, “O pequeno burguês” e “Segure tudo”. Alguns casais ensaiaram uma dança de salão enquanto ele cantava “Mulheres”, desta vez já acompanhado por uma farta e competente banda de apoio, mesma que lhe deu suporte para transformar em apoteose o infalível sambão “Madalena do jucu”.

Muito bonita e bem vestida, Vanessa da Mata cantou alguns de seus maiores sucessos pop, como “Boa sorte”, “Não me deixe só” e “Ai, ai, ai, ai, ai”. A seguir, João Bosco evocou Chaplin – cuja última morada foi ali bem próxima do local do show, Vevey, com sua casa transformada em museu – e tocou com Hamilton de Hollanda uma versão de “O bêbado e a equilibrista” com introdução de “Smile”, de autoria do famoso intérprete de Carlitos. Recordou ainda a edição de 1983 do festival em que, ao lado de Ney Matogrosso e Caetano Veloso, entoaram a eterna “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, com direito a coro da plateia.

A MAIS APLAUDIDA

Eis que chega Ana Carolina com seu carisma e seu público fiel – era nítido que muitos foram ali só para vê-la – e foi a mais aplaudida e ovacionada da noite. Com uma performance teatral, puxou coro e comandou a massa com quatro de seus maiores sucessos: “É isso aí”, “Quem de nós dois”, sua versão delicada de “Eu sei que vou te amar”, tema de abertura da recente novela “Em família”, da TV Globo, e “Garganta”, arrancando exaltados pedidos de bis. Depois cantou “Linha de passe” com João Bosco e o bandolim de Hamilton – músico, aliás, que deu canja em diversos momentos com vários artistas.

Maria Rita escolheu quatro sambas, incluindo o atualíssimo “É”, de Gonzaguinha, e pode hoje ser considerada a maior intérprete do compositor dentre os artistas da nova geração da MPB. Ivan Lins a sucedeu no palco, apresentado – acreditem – por Quincy Jones, presente no local. Nos bastidores foi tietado por Martinho da Vila, que pediu para fazer uma foto com ele, e tietou Elba Ramalho (!), dizendo-se seu grande admirador. Ivan, como se sabe, é depois de Tom Jobim o compositor brasileiro mais gravado no exterior e, de todos, foi talvez o que mais honrou a pegada jazzística original do festival. Em sua apresentação foi feliz em reviver “Novo tempo”, uma canção de 1980 ainda muito contemporânea, emparelhada com “A gente merece ser feliz”, um samba em parceria com Paulo César Pinheiro, que merecia ser mais conhecido do público. Ao final, chamou novamente Maria Rita para juntos homenagearem o sucesso de Elis Regina no festival de 1979, entoando em duo “Madalena”.

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Antes do grand finale, com todos no palco, Elba Ramalho, munida de um salto altíssimo e um belo vestido curto brilhante, desfilou seu eterno “De volta pro aconchego” e hits alheios de Alceu Valença (“Anunciação”), Clara Nunes (“Morena de Angola”) e Amelinha (“Frevo mulher”), sendo bastante aplaudida nesta última, quando o relógio já varava a madrugada de segunda-feira. O último número seria “Samba do avião”, de Tom Jobim, mas foi em cima da hora alterado para o hino da bossa nova “Chega de saudade”, também de Tom, mas com Vinicius. O elenco heterogêneo não se afinou muito na música devido às tonalidades tão diversas, mas esquentou quando Ana Carolina quebrou o protocolo e pegou uma bandeira do Brasil nas mãos de um rapaz da plateia e ao final fez uma selfie com João Bosco tendo o público atrás como pano de fundo, com adesão progressiva do restante do elenco que também se meteu atrás de seu celular, de improviso, esquentando um fim de festa que poderia correr o risco de ser morno.

Nos 50 anos de Montreux, a Suíça nos deu uma pequena mostra de civilidade com um festival magistralmente diverso e bem organizado, ainda que cada vez menos jazzístico e mais pop, e o Brasil por sua vez mostrou sua excelência em forma de música com o incrível elenco que Mazzola escolheu para esta celebração, resumindo para o mundo que ainda existe música com M maiúsculo em nosso país.

Fonte: O Globo

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