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Blog Cantinho da Ana
16 junho 2017

Ana Carolina, a cantora e a escritora

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Ana Carolina está em Portugal para cantar Grandes Sucessos, espetáculo que levará ao palco do Coliseu dos Recreios, Lisboa, a 16 de junho, e do Coliseu do Porto, a 18. Mas não veio sozinha. Trouxe-nos o seu primeiro livro, apresentado esta semana.Nas páginas de Ruído Branco, mostra-se poesia, mostra-se prosa, mostra-se frágil e forte, luz e sombra. Nesta que é a sua primeira incursão literária publicada, Ana Carolina mostra-se como é. Ana Carolina é densa, cheia, muito.

Grandes Sucessos é nome do espetáculo que agora nos traz. O que considera ter sido o seu maior sucesso na vida?

Se eu for pensar no sucesso em termos de popularidade, diria que as músicas Quem de nós dois, É isso aí, Garganta… Mas para mim, o sucesso é hoje poder lançar um livro como este (Ruído Branco), que é tão radical, tão aberto. Um livro que vai no caminho contrário às coisas da música; em que eu não escrevo a letra, faço mais as melodias. Este é um sucesso pessoal, é importante para mim. É uma conquista.

Mencionou a música Garganta. O que é que lhe custa a engolir?

Apesar de ter uma personalidade forte, eu acredito na flexibilidade e acredito muito que os que sobrevivem são aqueles que conseguem entender o meio em que estão e que conseguem passar pelas coisas com leveza. Os que são capazes de fazer, como diz o Lenine, o projeto vista grossa (risos)! Eu posso engolir um sapo, sou capaz até de engolir a lagoa inteira, se tiver um propósito maior, se eu souber que vou encontrar um arco-íris mais à frente.

Vou deixar a Rua me levar é outro dos seus grandes sucessos musicais. Consegue deixar-se levar ou pelo contrário tem necessidade em planear e controlar?

Vou responder, usando o livro como exemplo. Há uma parte do livro que recupera os meus escritos antigos de quando eu tinha 11, 12 anos. A parte da criança é muito solta, livre… Quando agora escrevi textos novos, porque não tinha material antigo suficiente para completar o livro, buscava essa criança; tentava não interferir na escrita. Quando os textos não saíam soltos, eu eliminava-os. Os melhores momentos deste livro, na minha opinião, são os momentos em que eu deixei a coisa me atravessar e acontecer inteira, sem ficar interferindo, controlando, como eu faço, às vezes, na música. Também no livro não há a pressão da cantora popular, não há a pressão do sucesso…

O homem que há em mim se apaixonou perdidamente pela mulher que eu sou. Esta é a primeira frase do seu Ruído Branco. O que é que ela significa?

Essa frase é o resultado de uma decisão minha. Quando eu, não tendo pai, resolvo ser essa pessoa; resolvo ser o que me está em falta. Eu escolho ser o que me falta e junto a coisa masculina e feminina.

O título que deu ao seu livro – Ruído Branco – de alguma forma é uma metáfora desta mistura, junção, fusão….

O ruído branco é um som complexo, que às vezes nem se percebe. É uma mistura. Para entendermos o mundo, nós costumamos separar tudo: o homem e a mulher, o quadrado e o redondo… É engraçado. Os homens têm uma coisa ótima de foco. Foca no problema até resolver. Usando a questão da separação das coisas, eu acho – de acordo com amigas, ex-namoradas, as muitas mulheres na minha vida – que, por conta do parir, de tirar um outro coração de dentro do útero, a mulher coloca todos os problemas ao mesmo nível, dando-lhes a mesma importância. Por exemplo, morreu alguém, quebrou um salto, ele não me ligou, o meu carro pifou… Para as mulheres, todos os problemas têm a mesma intensidade… Isso é ruído branco, todos os sons juntos, todas as coisas juntas.

Para si, qual a grande diferença entre namorar uma mulher e namorar um homem?

Eu comecei a namorar com 16, 17 anos, mas os homens não me davam prazer. Eu não conseguia gozar, só eles gozavam… E então a primeira mulher com quem eu estive deu-me a conhecer Picasso, levou-me para um universo com outra sensibilidade, eu conseguia chegar até ao final, no sexo, ela preocupava-se com o meu prazer. Eu não me apaixono pelos homens, não sinto por eles essa paixão forte, genuína. Por isso hoje eu acho, até com mais certeza do que outrora, que a minha vida vai ser do lado de uma mulher. As mulheres têm mais arabescos, pensam em tudo… E eu gosto de me jogar nesse universo.

Leandro Karnal (historiador brasileiro) disse uma coisa há pouco tempo que eu fiquei achando graça. Não sei se concordo, mas fiquei achando graça: o homem escolhe a mulher com quem ele vai casar e se tiver uma comida boa, uma televisão… ele vai ficando até aos 100 anos. A mulher quer ser feliz. A mulher discute a relação, tem uma coisa questionadora, ela corre atrás da felicidade.

O homem só larga de uma mão quando já tem outra. E se a amante deixar – eu sou filha de amantes – ele vai ficar ali, segurando as duas. Porque a amante faz com que ele fique com a mulher oficial. A amante não sabe disso…

Ana Carolina, no Hotel Sheraton. (Fotografia António Pedro Santos / Global Imagens )

A sua mãe foi amante do seu pai. Num dos textos, O silêncio, fala justamente sobre ter nascido desse amor extraconjugal. Alguma vez esse facto a incomodou?

Na adolescência foi muito difícil. Quando a minha mãe me pediu silêncio, ela disse: o seu pai tem uma família, você tem irmãos, e nós vamos ficar em silêncio porque eu prometi ao seu pai que ficaríamos em silêncio. Então a história da minha vida não foi minha. Durante muito tempo, ela foi da minha mãe e do meu pai. Eu não sabia o que dizer, na escola. Acho até que a fertilização da minha imaginação começou aí. Eu tinha de inventar tantas desculpas… comecei por inventar que tinha pai, mas que ele viajava muito; depois dizia que a minha mãe tinha realmente casado com o meu pai, mas o meu pai tinha morrido. Eu tinha de inventar coisas, era a maneira de me proteger.

De que forma é que isto a moldou?

Com isto me tornei uma pessoa capaz de ter uma melhor compreensão para as dificuldades do outro em relação ao sistema. Tanto que no colégio eu ficava amiga dos meninos que eram diferentes.

O sistema pode ser muito cruel para quem vive fora dele. Lembro-me que quando eu era criança, o dia do pai, por exemplo, imposto pelo sistema, era um dia em que eu nunca queria ir à escola. Eu passava por uma situação constrangedora, quando era pedido para que fizéssemos um desenho para o pai. Eu desenhava e perguntava a mim própria: estou a fazer esse desenho para quem? Você é criança, não tem recurso para lidar com isto.

Hoje as pessoas têm a cabeça mais aberta para tudo, inclusive para a traição, para se resolver; homens se separam mais, mulheres dizem não quero mais…

Alguma vez criticou o pedido de silêncio que lhe foi feito pela sua mãe?

Não. Eu acho que foi muito difícil para ela, foi uma mulher que teve uma vida muito complicada. Ela tomou as decisões que podia tomar.

Este é um livro autobiográfico, que expõe a sua vida. Porquê lançá-lo agora?

Foi uma coisa muito passiva da minha parte. A editora procurou-me e perguntou se eu tinha alguma coisa, alguns escritos. E eu pensei: eu tenho, sim, mas será que vale a pena lançar? Será que daria um livro? Fiquei questionando o tempo inteiro. Mas no final conseguimos montar o livro com as coisas antigas, o caderninho – que escrevi na adolescência – e textos novos.

Está a dizer-me que foi uma casualidade? Poderia ter acontecido há 5 anos ou daqui por 5 anos…

Na verdade, não. Como é que eu poderia há 5 anos, muito imatura, estar numa mesma livraria que o José Luís Peixoto, que escreveu o meu prefácio? Não que agora eu me considere especial, mas a entrega com que escrevi a dor, essa catarse que foi colocá-la ali, no livro, é digna. Tem uma dignidade que me faz poder estar na mesma livraria.

Na pág. 47, escreve sobre os 41 anos. O avançar da idade é uma questão para si?

É claro que envelhecer é muito bom, inclusive para poder elaborar as questões, para poder escrever, livrar-se dos fantasmas, mas a questão do corpo, da ruga, do curar a ressaca… Morro de medo de envelhecer.

Um sonho sem idade nem data marcada?

É segredo.

Livro: Ruído Branco, Ana Carolina, 2017, Planeta Manuscrito

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